Durante muitos anos, construir uma carreira sólida significava permanecer na mesma empresa, crescer internamente, conquistar a confiança dos acionistas e tornar-se uma referência dentro da organização.
E, durante muito tempo, esse modelo funcionou muito bem. Mas o mercado mudou. Hoje, é cada vez mais comum encontrar executivos que dedicaram 15, 20 ou até 30 anos à mesma empresa e, de repente, precisam olhar novamente para o mercado.
Às vezes, por uma sucessão familiar. Em outras, por uma fusão, aquisição, mudança estratégica, reestruturação ou renovação da liderança.
Em muitos casos, a mudança não acontece por falta de competência, mas simplesmente porque as organizações evoluem e novos ciclos se iniciam.
É justamente nesse momento que muitos descobrem uma realidade desconfortável: construíram uma carreira admirável dentro da empresa, mas deixaram de construir sua carreira perante o mercado.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. Ao longo dos últimos anos, como headhunter e mentor de carreira, acompanhei centenas de executivos vivendo esse momento.
CEOs, diretores e gerentes gerais com trajetórias extraordinárias, profissionais que lideraram grandes equipes, abriram operações, conduziram empresas em momentos de crise, entregaram resultados consistentes e desenvolveram pessoas. No entanto, quando precisaram voltar ao mercado, encontraram um desafio que jamais imaginaram enfrentar.
Tinham uma história rica, mas pouca visibilidade. Resultados expressivos, mas pouca capacidade de comunicá-los. Uma reputação consolidada dentro da empresa, mas praticamente desconhecida fora dela. Não porque lhes faltasse competência. Mas porque, durante muitos anos, toda a energia foi dedicada ao crescimento da organização, enquanto a gestão da própria carreira ficou em segundo plano.
Esse é um erro compreensível. Quando estamos envolvidos com a operação, com metas, orçamento, pessoas, clientes, investidores e resultados, sobra pouco tempo para pensar em nós mesmos.
Só que carreira também precisa de gestão. Assim como uma empresa necessita de planejamento estratégico, indicadores, investimentos e revisão constante da rota, a carreira executiva exige atenção permanente.
Infelizmente, muitos profissionais só percebem isso quando surge a necessidade de mudar. E, nesse momento, descobrem que a preparação não começa quando a vaga aparece. Ela deveria ter começado anos antes.
Outro aspecto que me chama atenção é que esse comportamento não acontece apenas entre executivos experientes. Vejo muitos jovens líderes repetindo exatamente o mesmo caminho.
Entram em uma excelente empresa. São promovidos. Assumem novos desafios. Recebem reconhecimento. E passam a acreditar que essa trajetória continuará acontecendo naturalmente.
Mas carreira não é uma sequência automática de promoções. Carreira é um patrimônio. E patrimônio precisa ser administrado.
O mercado executivo mudou profundamente. Hoje, oportunidades relevantes surgem muito menos pelos anúncios tradicionais e muito mais pela reputação construída ao longo do tempo, pelos relacionamentos desenvolvidos, pela credibilidade conquistada e pela capacidade de demonstrar resultados.
Um bom currículo abre portas, mas uma boa reputação faz com que as portas se abram antes mesmo de você bater.
É comum encontrar executivos brilhantes que nunca registraram seus principais resultados.
Nunca organizaram os projetos que lideraram. Nunca refletiram sobre o legado que construíram. Nunca desenvolveram uma narrativa consistente sobre a própria trajetória.
Quando participam de uma entrevista, acabam descrevendo cargos. Mas o mercado não contrata cargos. O mercado contrata impacto. Ele quer entender quais problemas você resolveu. Quais resultados entregou. Que tipo de cultura ajudou a construir. Como desenvolveu líderes. Quais decisões difíceis tomou. Como reagiu diante das crises.
Essas respostas não podem ser improvisadas. Elas precisam ser construídas ao longo da carreira. Existe ainda um fator que considero decisivo: o aprendizado contínuo.
Uma pesquisa publicada pela Harvard Business Review mostra que os líderes que mantêm uma postura permanente de aprendizado, ampliam sua rede de relacionamentos e investem continuamente no desenvolvimento de novas competências apresentam maior capacidade de adaptação e permanecem mais competitivos ao longo da carreira. A principal conclusão é simples: a empregabilidade não é construída quando surge a necessidade de mudar. Ela é construída durante os períodos de estabilidade, quando muitos acreditam que ela já está garantida.
Essa talvez seja a maior armadilha do sucesso. A estabilidade pode gerar conforto. E o conforto, quando não percebido, pode transformar-se em acomodação.
Por isso, gosto de provocar alguns executivos com perguntas simples. Se amanhã você precisasse voltar ao mercado, o mercado saberia quem você é? Sua trajetória está registrada de forma consistente? Você consegue explicar, com objetividade, o valor que entrega? Sua rede de relacionamentos continua ativa? Você continua aprendendo ou apenas repetindo aquilo que já sabe fazer? São perguntas desconfortáveis. Mas extremamente importantes.
Porque empresas mudam. Conselhos mudam. Acionistas mudam. Tecnologias mudam. E, inevitavelmente, o mercado também muda. Não existe uma receita pronta para construir uma carreira executiva relevante e longeva.
Cada profissional tem sua história, seus desafios e suas circunstâncias. Também não tenho a pretensão de ser a única voz sobre esse tema.
As reflexões que compartilho aqui são fruto da minha experiência como executivo, gerente geral, headhunter e mentor de carreira, mas, principalmente, das centenas de conversas que tive e tenho com líderes que, em algum momento, precisaram recomeçar, reposicionar sua trajetória ou voltar a olhar para o mercado.
Ao longo dessas conversas, uma conclusão se repete. Os profissionais que atravessam melhor esses momentos não são, necessariamente, os mais talentosos ou os que ocuparam os maiores cargos, são aqueles que nunca deixaram de investir em si mesmos.
Se eu pudesse deixar apenas uma recomendação, seria esta: Administre sua carreira com a mesma dedicação com que administra a empresa onde trabalha.
Tenha um mentor. Busque novos conhecimentos. Leia. Estude. Participe de eventos. Amplie sua rede de relacionamentos. Compartilhe conhecimento. Mantenha-se curioso. E, principalmente, não permita que o “velho eu” se instale nas suas atitudes. Não estou falando da idade. Estou falando da acomodação. Da falsa sensação de que já não há mais nada para aprender. Da crença de que as respostas do passado continuarão resolvendo os desafios do futuro.
A experiência é um patrimônio extraordinário. Mas ela só continua sendo um diferencial quando vem acompanhada de curiosidade, humildade e disposição para evoluir.
“O maior risco para uma carreira executiva não é precisar mudar de empresa. É deixar de evoluir enquanto permanece na mesma.”
Muito obrigado por dedicar parte do seu tempo à leitura deste artigo.
Espero que esta reflexão o incentive a reservar alguns minutos, ainda esta semana, para pensar na sua própria trajetória. Não apenas no cargo que ocupa hoje, mas na carreira que deseja construir para os próximos anos.
Porque, no final das contas, cargos são temporários. Empresas passam por ciclos. Mercados se transformam. Mas a sua reputação, sua capacidade de aprender e a forma como você se prepara para o próximo capítulo da sua história continuarão sendo os ativos mais valiosos da sua carreira.
Desejo a todos uma excelente semana, com boas decisões, novos aprendizados e a coragem de nunca parar de evoluir.
Forte abraço!
