out 27

A Arte de Fazer Perguntas: A Nova Competência dos Líderes

Vivemos um tempo em que a velocidade, a urgência e a imprevisibilidade, antes características quase exclusivas das empresas de tecnologia, passaram a atingir setores maduros e tradicionais. O que antes parecia distante — mudanças rápidas, rupturas de mercado, transformações digitais — hoje se tornou parte do cotidiano da maioria das organizações. Nesse contexto, já não basta ter respostas prontas. O verdadeiro diferencial passou a ser a capacidade de fazer perguntas inteligentes, relevantes e transformadoras.

Se, no passado, a liderança era valorizada por acumular conhecimento e oferecer soluções imediatas, hoje o jogo mudou. O acesso à informação está democratizado. A internet, as redes sociais e, mais recentemente, a inteligência artificial criaram um ambiente em que qualquer pessoa pode ter acesso a dados, relatórios, análises e insights em segundos. O que era raro — saber algo que os outros não sabiam — se tornou abundante. E, diante dessa abundância, a vantagem competitiva não está mais em possuir informações, mas em saber perguntar o que realmente importa.

O valor das perguntas na liderança moderna

Jane Fraser, CEO do Citi, afirmou em entrevista à Fortune que os líderes não possuem mais todas as respostas — elas estão nas equipes, nos colaboradores, na inteligência coletiva das organizações. O papel do líder, portanto, deixou de ser o de “gênio solitário” que guia todos os passos e passou a ser o de facilitador, capaz de despertar a criatividade e liberar o potencial de sua equipe.

Essa mudança é profunda. Historicamente, fomos acostumados a enxergar o líder como aquele que tinha “a última palavra”. No entanto, em um mundo de complexidade crescente, a última palavra não existe. O que existe é a pergunta certa, capaz de abrir caminhos, provocar reflexão e gerar inovação.

Por que perguntar é mais poderoso do que responder?

  1. Estimula a colaboração: enquanto respostas encerram conversas, perguntas bem formuladas abrem espaço para o diálogo e para múltiplas contribuições.
  2. Impulsiona a inovação: grandes avanços surgem de questionamentos. Foi perguntando “E se…?” que cientistas, empreendedores e artistas mudaram paradigmas.
  3. Constrói autonomia: líderes que oferecem apenas respostas criam dependência. Líderes que perguntam ensinam suas equipes a pensar, refletir e decidir.
  4. Fortalece relacionamentos: demonstrar curiosidade genuína pelas ideias do outro é uma forma poderosa de construir confiança e engajamento.

O poder das perguntas certas

Pesquisas da Harvard Business School mostram que profissionais que fazem perguntas abertas em interações sociais são percebidos como mais empáticos, interessantes e competentes. O simples ato de perguntar demonstra interesse e atenção — algo que, em ambientes corporativos, se traduz em clima organizacional positivo e maior engajamento.

No mundo da hospitalidade, por exemplo, onde já atuei em processos de recrutamento e desenvolvimento de equipes, percebi que líderes que perguntam “Como podemos melhorar a experiência do hóspede?” ou “O que você acha que falta para atingirmos nosso objetivo?” criam times mais engajados do que aqueles que apenas dão ordens. A pergunta abre espaço para participação; a ordem fecha a possibilidade de diálogo.

No campo da tecnologia, um bom exemplo é a ascensão das metodologias ágeis. Em vez de buscar respostas definitivas, essas metodologias se apoiam em ciclos curtos de perguntas: “O que funcionou nesta sprint?”, “O que não funcionou?”, “O que podemos ajustar no próximo ciclo?”. Mais do que respostas imediatas, o que se valoriza é a capacidade de questionar continuamente.

Exemplos práticos de perguntas que transformam

  • “O que estamos deixando de ver neste projeto?” Convida a equipe a olhar para pontos cegos e ampliar perspectivas.
  • “Qual seria a maneira mais simples de resolver este desafio?” Ajuda a combater a tendência de complicar processos e busca soluções enxutas.
  • “De que forma essa decisão impacta nossa equipe e nossos clientes?” Conecta decisões estratégicas à experiência humana, lembrando que resultados dependem de pessoas.
  • “Se tivéssemos que começar do zero, faríamos diferente?” Permite revisar modelos que podem ter se cristalizado com o tempo.
  • “O que você faria se estivesse no meu lugar?” Dá voz à equipe e demonstra humildade intelectual por parte da liderança.

Essas perguntas são simples, mas poderosas, porque mudam o foco da conversa. Ao invés de restringir, elas expandem a visão.

A mentalidade por trás da pergunta

Fazer boas perguntas exige mais do que técnica: exige mentalidade. É preciso cultivar curiosidade genuína, disposição para ouvir e humildade para reconhecer que não temos todas as respostas.

No entanto, nem toda pergunta gera impacto. Há perguntas que apenas confirmam o óbvio ou que servem como retórica. A arte de perguntar exige intencionalidade: é necessário pensar no efeito que queremos provocar.

Três elementos ajudam a formular boas perguntas:

  1. Clareza — perguntas vagas geram respostas vagas. Perguntas específicas direcionam o raciocínio.
  2. Abertura — perguntas abertas permitem múltiplas respostas e ampliam a reflexão.
  3. Coragem — perguntas difíceis desafiam crenças estabelecidas e podem gerar desconforto, mas são essenciais para o crescimento.

Perguntar também é liderar

Em meu trabalho como headhunter, percebo diariamente como a habilidade de perguntar diferencia líderes de destaque. Durante entrevistas, costumo observar não apenas as respostas, mas também as perguntas que os candidatos fazem. Os melhores profissionais são aqueles que não se limitam a responder sobre suas conquistas, mas também perguntam sobre cultura organizacional, expectativas de desempenho e desafios estratégicos. Eles demonstram interesse real pelo contexto e capacidade de enxergar além da superfície.

Da mesma forma, executivos em busca de novas oportunidades frequentemente me relatam que valorizam empresas cujos líderes sabem escutar e perguntar. O que se busca não é mais o chefe que centraliza tudo, mas o líder que abre espaço para o coletivo.

Perguntas como ferramenta de desenvolvimento

O coaching e a mentoria, áreas em que atuo no Instituto Ludwig & Poloni, também se apoiam fortemente na arte de perguntar. Ao invés de oferecer conselhos diretos, um mentor eficaz ajuda o profissional a encontrar suas próprias respostas por meio de questionamentos estratégicos:

  • “O que está realmente por trás desse desafio?”
  • “Quais opções você ainda não considerou?”
  • “O que depende de você e o que não depende?”

Esse processo é transformador porque gera autoconhecimento e clareza. A pessoa não recebe uma solução pronta; ela constrói seu próprio caminho a partir das reflexões que surgem.

O desafio das organizações

Para que a cultura da pergunta se estabeleça, é preciso que as organizações abandonem a lógica do erro como punição. Perguntar implica admitir que não sabemos algo — e isso só é possível em ambientes que valorizam a vulnerabilidade e o aprendizado contínuo.

Empresas que estimulam a curiosidade tendem a ter maior capacidade de inovação. Um estudo da PwC mostrou que organizações que cultivam ambientes de questionamento têm até 30% mais chances de lançar produtos e serviços inovadores. Isso ocorre porque, em vez de sufocar dúvidas, elas as transformam em combustível para o crescimento.

Conclusão: uma pergunta pode valer mais que dez respostas

A arte de fazer perguntas é, antes de tudo, uma mudança de mentalidade. É aceitar que, em um mundo complexo, respostas únicas não existem. É compreender que o conhecimento não está concentrado no topo da hierarquia, mas espalhado entre pessoas, experiências e perspectivas diversas.

O líder que domina essa arte não se preocupa em ter sempre a última palavra. Ele se preocupa em fazer a pergunta que abre caminhos, que estimula, que conecta.

Talvez a verdadeira marca de um grande líder não esteja em quantas respostas ele deu, mas em quantas boas perguntas ele deixou como legado.

E eu deixo a você, que me acompanha aqui no LinkedIn, uma provocação final:

👉 Quais foram as perguntas que mais transformaram a sua carreira e a sua vida?